Degenerescência Articular

Artrose do Joelho (Gonartrose)

A artrose é a doença articular mais prevalente. Mas ter artrose não significa ter de operar — a maioria dos doentes gere bem os sintomas com tratamento conservador.

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+60%Adultos >65 anos com artrose
4–6×Carga extra por kg de peso
Grau IVIndicação principal para prótese
15–20 anosLongevidade média da prótese total

A Degenerescência Progressiva da Articulação

A artrose do joelho (gonartrose) é uma doença degenerativa caracterizada pela deterioração progressiva da cartilagem articular, com reacção óssea secundária (osteofitos), esclerose subcondral e inflamação sinovial. É a doença articular mais prevalente e uma das principais causas de incapacidade funcional em adultos.

A gonartrose pode afectar um ou mais compartimentos do joelho: medial (o mais frequente), lateral e patelofemoral. A distribuição da doença influencia a escolha do tratamento cirúrgico quando este é necessário.

A artrose não é inevitavelmente progressiva nem equivale a cirurgia. Muitos doentes estabilizam com tratamento conservador adequado — fisioterapia, controlo de peso, actividade adaptada e injecções quando indicadas.

Cada quilograma de excesso de peso gera 4 a 6 kg de carga adicional sobre o joelho em marcha. A perda de peso é a intervenção com maior impacto na progressão da gonartrose e nos sintomas.

Artrose Bilateral — Predomínio Interno

Artrose Bilateral — Predomínio Interno

Radiografia em carga: pinçamento do compartimento interno em ambos os joelhos.

Classificação de Kellgren-Lawrence

A classificação de Kellgren-Lawrence (KL) é o sistema de referência internacional para estadiar a artrose do joelho por radiografia. O grau orienta a decisão terapêutica.

GrauDesignaçãoAchados RadiológicosImplicação Clínica
Grau 0 Normal Sem alterações radiológicas de artrose. Dor sem correlato radiológico — pesquisar outras causas.
Grau I Duvidoso Osteofitos mínimos de significado clínico duvidoso. Espaço articular preservado. Tratamento conservador. Optimizar factores modificáveis.
Grau II Ligeiro Osteofitos definidos. Espaço articular preservado ou ligeiramente reduzido. Fisioterapia, controlo de peso, injecções se sintomático. Vigilância.
Grau III Moderado Osteofitos definidos. Estreitamento moderado do espaço articular. Esclerose subcondral. Tratamento conservador máximo. Considerar osteotomia em jovens. Prótese unicompartimental.
Grau IV Grave Osteofitos graves. Estreitamento marcado do espaço articular. Esclerose subcondral. Possível deformidade. Indicação principal para prótese total ou unicompartimental. Cirurgia quando sintomas limitantes e conservador esgotado.

O que Causa e Agrava a Gonartrose?

Identificar e actuar sobre os factores modificáveis é a base do tratamento conservador.

Excesso de Peso

O factor modificável com maior impacto. 4–6 kg de carga adicional por cada kg de excesso de peso.

Modificável

Idade

Prevalência aumenta exponencialmente após os 50 anos. A artrose não é exclusiva de idosos — lesões prévias aceleram o processo.

Não modificável

Sexo Feminino

Maior prevalência e gravidade após a menopausa. Alterações hormonais influenciam a homeostasia da cartilagem.

Não modificável

Lesões Anteriores

Rotura do LCA, lesões meniscais e fracturas articulares aceleram significativamente a gonartrose.

Prevenível

Deformidade do Eixo

Varo (pernas arqueadas) sobrecarrega o compartimento medial. Valgo sobrecarrega o lateral.

Corrigível cirurgicamente

Sedentarismo

Fraqueza muscular reduz a protecção articular dinâmica. Exercício adequado é protector, não prejudicial.

Modificável

Do Conservador à Cirurgia — Por Ordem

A artrose é tratada em escada progressiva. A cirurgia é sempre a última opção — quando o conservador foi adequadamente tentado e esgotado.

1

Modificação do Estilo de Vida

Perda de peso (o mais importante), exercício adaptado de baixo impacto (natação, bicicleta, caminhada), evitar actividades de alto impacto repetitivo.

2

Fisioterapia e Fortalecimento Muscular

Fortalecimento do quadricípite e isquiotibiais reduz a carga articular. Evidência sólida mesmo em artrose avançada. Terapia manual pode aliviar sintomas.

3

Medicação Analgésica e Anti-inflamatória

Paracetamol para uso regular; NSAIDs para crises agudas. Uso crónico de NSAIDs requer vigilância renal, cardiovascular e gastrointestinal.

4

Injecções Intra-articulares

Corticosteroide (alívio rápido de crises), ácido hialurónico (lubrificação, efeito modesto), PRP (factores de crescimento, evidência emergente). Nenhuma "regenera" a cartilagem.

5

Cirurgia de Preservação Articular

Osteotomia tibial (jovens com varo/valgo), prótese unicompartimental (artrose de um compartimento). Adiam ou evitam a prótese total.

6

Prótese Total do Joelho

Última linha. Para artrose tricompartimental avançada (KL III–IV) com limitação funcional significativa que falhou todas as outras opções. Longevidade >90% a 15 anos.

Desporto depois da prótese? Sim. Uma prótese do joelho não é o fim da vida activa — pelo contrário, o objectivo da cirurgia é devolver mobilidade sem dor. A maioria dos doentes regressa a actividades de baixo e médio impacto: caminhada, natação, hidroginástica, bicicleta, golfe, hiking, ténis de pares e esqui recreativo. Aconselha-se apenas evitar o impacto repetitivo de alta intensidade (corrida de longa distância, saltos e desportos de contacto), que acelera o desgaste do implante.

Injecções — O que Funcionam e o que Não Funcionam

As injecções são valiosas no tratamento sintomático da artrose — mas existem mitos que importa desmistificar.

Corticosteroide

Alívio rápido e eficaz de crises inflamatórias. Efeito dura semanas a meses. Limitar a 3–4 injecções/ano — uso excessivo acelera degenerescência condral.

Evidência sólida (sintomático)

Ácido Hialurónico

Melhora lubrificação articular. Efeito modesto mas mais prolongado que o corticosteroide em alguns doentes. Não regenera cartilagem — o termo "viscossuplementação" é mais preciso.

Evidência moderada

PRP ("Plasma Rico em Plaquetas")

Factores de crescimento do próprio sangue. Evidência crescente em artrose KL I–II. Não regenera cartilagem — o termo "regenerativo" é clinicamente impreciso e deve ser evitado.

Evidência moderada (precoce)

Células Estaminais / BMAC

Concentrado de medula óssea. Evidência emergente, estudos de qualidade variável. Não aprovado como tratamento padrão. Considerar apenas em centros com protocolos de investigação.

Evidência limitada
⚠ Injecções "regenerativas": PRP, ácido hialurónico e células estaminais são frequentemente comercializados como tratamentos regenerativos da cartilagem. Não existe evidência robusta de regeneração estrutural da cartilagem articular com nenhuma destas técnicas. Podem oferecer alívio sintomático — com indicações e expectativas realistas — mas não substituem a progressão natural da doença.

Dúvidas sobre Artrose do Joelho

Não necessariamente. A maioria das pessoas com artrose gere bem os sintomas sem cirurgia. A prótese é a última opção, reservada para artrose avançada com limitação funcional significativa que não respondeu ao tratamento conservador adequado. Muitos doentes com grau III ou mesmo IV vivem anos sem necessitar de cirurgia.
Não — o exercício adequado é protector, não prejudicial. Exercício de baixo impacto (natação, bicicleta, caminhada) fortalece os músculos que protegem a articulação e melhora a função. O que agrava a artrose é o impacto repetitivo de alta intensidade (corrida em piso duro, desportos de contacto) e o sedentarismo. O movimento é medicina para a articulação.
Não. Nenhuma injecção actualmente disponível regenera a cartilagem articular de forma consistente e clinicamente relevante. O ácido hialurónico e o PRP podem oferecer alívio sintomático temporário — em meses — mas não alteram a progressão estrutural da doença. Devem ser considerados como tratamento sintomático com expectativas realistas.
A prótese unicompartimental (parcial) substitui apenas o compartimento doente — tipicamente o medial. É menos invasiva, tem recuperação mais rápida e preserva os ligamentos naturais. É indicada quando apenas um compartimento está afectado. A prótese total substitui toda a superfície articular e é indicada para artrose tricompartimental avançada.
Não existe uma idade mínima ou máxima absoluta. A decisão baseia-se nos sintomas, limitação funcional e qualidade de vida — não na idade. Em doentes jovens, as expectativas de actividade mais elevada e o maior tempo de exposição do implante são factores a ponderar cuidadosamente na decisão.
O custo depende da via de tratamento. SIGIC (SNS): através do vale de cirurgia, a cirurgia é totalmente comparticipada — sem custo para o doente. Seguros e subsistemas de saúde: cirurgia convencionada, conforme o seu plano. Particular: orçamento personalizado — a título indicativo, a partir de €3.000 na artroscopia (menisco, ligamentos ou cartilagem, incluindo a reconstrução do ligamento cruzado anterior) e a partir de €8.000 na prótese do joelho. Os valores finais dependem do caso clínico, do hospital e dos implantes. Para um orçamento certo, marque uma consulta ou veja preços e orçamentos.
NC

Dr. Nuno Camelo Barbosa

Cirurgião Ortopédico · Subespecialista de Joelho
Hospital Lusíadas Porto · Hospital Misericórdia Vila do Conde · Paços de Ferreira

ArtrosePrótese do joelhoPreservação articular

Tem artrose do joelho?

Uma avaliação especializada define o estadio real da doença e o tratamento mais adequado ao seu caso específico — evitando cirurgia desnecessária ou adiando-a com qualidade de vida.

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Referências

Guidelines de sociedades científicas e revisões que sustentam esta informação.

  1. OARSI guidelines for the non-surgical management of knee, hip and polyarticular osteoarthritis. Osteoarthritis Cartilage, 2019.
  2. AAOS — Management of Osteoarthritis of the Knee (Non-Arthroplasty), 3rd ed.
Dr. Nuno Camelo Barbosa
Dr. Nuno Camelo Barbosa
Cirurgião ortopédico · Subespecialista em cirurgia do joelho
Revisor científico (AJSM · KSSTA · OJSM · JEO)
Última revisão médica: 24 de julho de 2026
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Evidência científica

O Que Diz a Literatura Mais Recente

Esta secção é revista periodicamente à luz dos estudos de maior nível de evidência — meta-análises, revisões sistemáticas, ensaios aleatorizados e normas de sociedades científicas.

Que tipo de exercício funciona melhor na artrose do joelho?
Se vai escolher um, o exercício aeróbio é o que reúne mais apoio. Numa network meta-analysis publicada no BMJ em 2025, que juntou 217 ensaios aleatorizados e 15 684 participantes, o exercício aeróbio ficou consistentemente melhor classificado na dor, na função, na marcha e na qualidade de vida, com certeza moderada. Reforço muscular e programas mistos também melhoraram a função a médio prazo. Caminhar, bicicleta e natação continuam a ser a base — e o melhor programa é o que consegue manter.[1]
O exercício resolve mesmo a dor da artrose, ou é o que se diz a toda a gente?
Vale a pena ser franco, porque a evidência não é unânime. Uma revisão de revisões publicada em 2026 reanalisou os dados e encontrou, contra placebo, uma redução de dor de cerca de 11 pontos numa escala de 0 a 100 a curto prazo — um efeito pequeno, de certeza muito baixa, e que diminuía nos ensaios maiores e mais longos. Os resultados foram semelhantes aos de educação, terapia manual, analgésicos e infiltrações. Isto não é razão para deixar de se mexer: o exercício tem benefícios cardiovasculares, metabólicos e de autonomia que nenhum destes estudos mede, e não tem os riscos das alternativas. É razão para não prometer que o exercício sozinho resolve a dor de toda a gente.[2][1]
Ouvi falar da embolização das artérias do joelho. Funciona?
Por agora, a evidência não sustenta o entusiasmo. Uma meta-análise de 2026 juntou 22 estudos e 633 doentes: os trabalhos sem grupo de comparação mostram grandes reduções de dor, mas os três ensaios aleatorizados que compararam a embolização com um procedimento simulado não encontraram diferença significativa entre os dois. Foi ainda descrita osteonecrose focal, sem sintomas, apenas nos casos tratados com microesferas permanentes. É um procedimento que continua em investigação, não um tratamento estabelecido — e vale a pena essa distinção antes de o considerar.[3]
Perder peso com medicação ajuda o joelho?
Há um sinal nesse sentido, ainda que indirecto. Uma meta-análise publicada na Nature Medicine em 2025, com 56 ensaios aleatorizados e mais de 60 000 doentes, avaliou os fármacos para a obesidade: o semaglutido e o tirzepatido levaram a perdas superiores a 10% do peso corporal, e entre os desfechos analisados o semaglutido reduziu a dor na artrose do joelho. É importante ler isto pelo que é — um estudo sobre tratamento da obesidade, em que o joelho aparece como um dos benefícios, e não um tratamento para a artrose. A decisão de usar estes fármacos é médica e depende do quadro geral, não apenas do joelho.[4]

Referências

Última revisão clínica: agosto de 2026 · Dr. Nuno Camelo

  1. Comparative efficacy and safety of exercise modalities in knee osteoarthritis: systematic review and network meta-analysis.Meta-análise
    Yan L, Li D, Xing D, Fan Z, Ge L, Wang B, et al. BMJ. 2025.
    Duzentos e dezassete ensaios aleatorizados, 15 684 participantes. Comparando modalidades de exercício entre si, o exercício aeróbio foi consistentemente o melhor classificado na dor, função, marcha e qualidade de vida, com evidência de certeza moderada. Reforço muscular e programas mistos também melhoraram a função a médio prazo.
    Ver estudo ↗
  2. Effectiveness of exercise therapy for osteoarthritis: an overview of systematic reviews and randomised controlled trials.Revisão sistemática
    Schleimer T, Teichert F, Henriksen M, Innocenti T, Pieper D, Belavy DL, et al. RMD Open. 2026.
    Revisão de revisões que reanalisou 5 revisões (8631 doentes) e 28 ensaios adicionais. Contra placebo, o exercício reduziu a dor do joelho em cerca de 11 pontos numa escala de 0 a 100 a curto prazo — um efeito pequeno, de certeza muito baixa, e menor nos ensaios maiores e mais longos. Os resultados foram comparáveis aos de educação, terapia manual, analgésicos e infiltrações. Os autores questionam a promoção universal do exercício.
    Ver estudo ↗
  3. Permanent vs. temporary embolic agents in genicular artery embolization for knee osteoarthritis: a systematic review and meta-analysis.Meta-análise
    Lanza E, Poretti D, Pedicini V, Kon E, Laghi A. European Journal of Radiology. 2026.
    Vinte e dois estudos, 633 doentes. Os estudos sem grupo de controlo mostram grandes reduções de dor, mas os três ensaios aleatorizados com procedimento simulado não encontraram diferença significativa entre embolizar e não embolizar. Osteonecrose focal assintomática foi descrita apenas com microesferas permanentes. Os autores concluem que faltam ensaios adequados antes de recomendar o procedimento.
    Ver estudo ↗
  4. A systematic review and meta-analysis of the efficacy and safety of pharmacological treatments for obesity in adults.Meta-análise
    McGowan B, Ciudin A, Busetto L, Frühbeck G, Sbraccia P, Yumuk V, et al. Nature Medicine. 2025.
    Cinquenta e seis ensaios aleatorizados, 60 307 doentes, comparando fármacos para a obesidade. O semaglutido e o tirzepatido levaram a perdas de peso acima de 10% do peso corporal. Entre os desfechos analisados, o semaglutido reduziu a dor na artrose do joelho. Este é um estudo sobre tratamento da obesidade, não sobre tratamento da artrose.
    Ver estudo ↗

Estas referências são material de apoio e não substituem uma avaliação clínica. A aplicação de qualquer destes resultados ao seu caso depende do exame do seu joelho.