Instabilidade Rotuliana

Luxação da Rótula — O que fazer?

A rótula saiu do lugar — é assustador, doloroso e deixa o joelho instável. A decisão entre tratamento conservador e cirurgia depende do risco de recorrência individual.

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15–20 anosPico de incidência
94–100%LMPF lesado na luxação
15–44%Recorrência após 1ª luxação
LMPFLigamento chave da estabilidade

A Rótula Deslocou-se — Porquê?

A rótula (patela) desliza normalmente numa ranhura do fémur chamada tróclea. A luxação ocorre quando a rótula se desloca para fora dessa ranhura — quase sempre lateralmente — por um mecanismo de flexão-rotação do joelho, trauma directo ou contracção muscular brusca.

O ligamento médio-patelofemoral (LMPF) é o principal freio à translação lateral da rótula. Na primeira luxação, o LMPF rompe em 94–100% dos casos. Esta ruptura é a razão pela qual o risco de recorrência existe e por que a avaliação especializada é essencial.

A luxação é mais comum em adolescentes e jovens adultos, particularmente do sexo feminino (pelve mais larga cria vector de tração lateral). Factores anatómicos como displasia troclear, patela alta ou inserção lateral do tendão rotuliano aumentam o risco.

Na primeira luxação, o LMPF rompe em quase todos os casos. Sem estabilização adequada — cirúrgica ou por fortalecimento muscular — o risco de nova luxação é real e cumulativo.

Quem Tem Maior Risco de Recorrência?

A estratificação do risco individual de recorrência é o factor mais importante na decisão terapêutica após a primeira luxação.

Displasia Troclear

A tróclea menos profunda não "guia" a rótula. O factor anatómico com maior impacto no risco de recorrência.

Não modificável

Patela Alta (Patella Alta)

Rótula posicionada acima da tróclea — menos encaixe, maior instabilidade. Medida pelo índice de Caton-Deschamps.

Não modificável (sem cirurgia)

TT-TG Aumentado

Distância tuberosidade tibial–sulco troclear >20mm. Indica lateralização da inserção do tendão rotuliano.

Corrigível cirurgicamente

Idade Jovem (<25 anos)

Jovens têm risco de recorrência significativamente maior. Especialmente em esqueleto imaturo.

Não modificável

Sexo Feminino

Pelve mais larga cria maior ângulo Q (valgum) — maior tracção lateral sobre a rótula.

Não modificável

Fraqueza Muscular

Quadricípite e vasto medial oblíquo fracos reduzem o controlo dinâmico rotuliano.

Modificável — fisioterapia

Primeira Luxação — Conservador ou Cirurgia?

O Consenso ESSKA 2024 para a primeira luxação rotuliana recomenda abordagem individualizada baseada no risco de recorrência. A cirurgia é cada vez mais considerada em doentes jovens com factores de risco anatómicos.

✓ Tratamento Conservador (1ª linha)

  • Primeira luxação sem lesão osteocondral significativa
  • Risco de recorrência baixo (sem displasia troclear, TT-TG normal)
  • Adulto com baixa exigência desportiva
  • Imobilização 2–4 semanas + fisioterapia
  • Fortalecimento intensivo do VMO e quadricípite
  • Joelheira de estabilização rotuliana

→ Cirurgia (considerar)

  • Luxação recorrente (2ª ou mais luxações)
  • Primeira luxação com lesão osteocondral ≥1 cm²
  • Doente jovem com múltiplos factores de risco anatómicos
  • Instabilidade residual após fisioterapia correcta
  • Esqueleto imaturo com displasia troclear grave
  • Atleta de alta performance com exigência de retorno rápido
ESSKA 2024: A reconstrução do LMPF é a técnica cirúrgica de eleição para estabilização dos tecidos moles — com resultados superiores à reparação simples. Em casos com displasia troclear grave ou TT-TG muito aumentado, podem ser necessários procedimentos ósseos adicionais (osteotomia da tuberosidade tibial, trocleoplastia).

Reconstrução do LMPF — O Procedimento Padrão

Quando a cirurgia é indicada, a reconstrução do ligamento médio-patelofemoral (LMPF) é o procedimento de referência para estabilizar a rótula.

01

Avaliação Pré-Operatória

Rx (TT-TG, Caton-Deschamps), RMN (qualidade do LMPF, lesões condrais), avaliação da displasia troclear. Planear se são necessários procedimentos ósseos adicionais.

02

Reconstrução LMPF

Enxerto (gracilis autólogo ou aloenxerto) fixado no ponto femoral isométrico e na face medial da patela. Tensionamento preciso — evitar sobreconstranger.

03

Reabilitação Pós-Op

Carga imediata com joelheira. Fortalecimento progressivo quadricípite/VMO. Retorno ao desporto ~4–6 meses após confirmação de estabilidade e força adequadas.

Dúvidas sobre Luxação da Rótula

Não necessariamente. A maioria das primeiras luxações é tratada de forma conservadora: imobilização curta, fisioterapia intensiva e joelheira. A cirurgia é considerada se existirem lesões condrais significativas, factores de risco anatómicos múltiplos, ou se a instabilidade persistir após fisioterapia correcta.
Após a primeira luxação, o risco de recorrência é de 15–44% sem tratamento cirúrgico. É significativamente maior em jovens, doentes com displasia troclear, TT-TG aumentado ou patela alta. A estratificação deste risco é o passo mais importante na decisão terapêutica.
O ligamento médio-patelofemoral (LMPF) é o principal freio estático à translação lateral da rótula. Na luxação, rompe em 94–100% dos casos. Sem o LMPF intacto, a rótula fica mais vulnerable a novas luxações. A sua reconstrução cirúrgica é o procedimento de referência quando a cirurgia é indicada.
Sim — o retorno ao desporto é tipicamente entre 4 e 6 meses, após confirmação de estabilidade rotuliana, força muscular adequada e ausência de instabilidade subjectiva. Os resultados da reconstrução do LMPF são consistentemente bons, com baixas taxas de recorrência quando a técnica e a indicação são correctas.
NC

Dr. Nuno Camelo Barbosa

Cirurgião Ortopédico · Subespecialista de Joelho
Hospital Lusíadas Porto · Hospital Misericórdia Vila do Conde · Paços de Ferreira

Luxação da rótulaInstabilidade rotulianaLMPF

A sua rótula luxou?

A avaliação do risco de recorrência e a decisão terapêutica correcta devem ser feitas por um especialista. Não adie — cada nova luxação aumenta o dano condral acumulado.

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