Cartilagem Articular

Lesões da Cartilagem do Joelho

A cartilagem não se regenera espontaneamente — mas as opções terapêuticas actuais permitem reparar, proteger e, em muitos casos, adiar anos a prótese.

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60%Joelhos artroscópicos com lesão condral
<2 cm²Limiar microfractura
Grau IVOsso exposto — sem cartilagem
80%Sucesso ACI/MACI a 5 anos

Porque é que as Lesões da Cartilagem são Difíceis?

A cartilagem articular (hialina) é o revestimento liso das superfícies ósseas do joelho. Não tem vasos sanguíneos nem nervos — o que a torna única na sua função, mas também extremamente limitada na capacidade de auto-reparação.

Uma lesão da cartilagem pode ser focal (uma "cova" numa área específica) ou difusa (degenerescência global — artrose). As lesões focais em doentes jovens são as mais tratáveis e onde as técnicas de restauração cartilaginosa têm maiores resultados.

Os sintomas incluem dor mecânica (pior com carga), inchaço recorrente, crepitação e bloqueios ocasionais. A ressonância magnética é o exame mais sensível, mas a avaliação definitiva é artroscópica.

⚠ As injecções de ácido hialurónico e PRP são denominadas por alguns de "regenerativas" — mas nenhuma tem evidência robusta de regeneração da cartilagem. Podem oferecer alívio sintomático temporário, mas não reparam o dano estrutural.

Camadas da Cartilagem Articular

Zona Superficial (tangencial) Zona de Transição Zona Radial (profunda) Zona Calcificada (tidemark) Osso Subcondral Gr.I Gr.II Gr.III Gr.IV Lesão focal Espessura total: 2–4 mm Sem vasos sanguíneos Auto-regeneração limitada

Classificação ICRS das Lesões Condrais

A classificação ICRS (International Cartilage Repair Society) é o sistema de referência. O grau orienta a decisão terapêutica.

GrauDesignaçãoDescrição HistológicaTratamento Típico
Grau I Superficial Amolecimento e fissuras superficiais — cartilagem intacta em profundidade. Fibrilação da superfície. Tratamento conservador, modificação de actividade, injecções sintomáticas
Grau II Parcial Lesão <50% da espessura da cartilagem. Fissuras que não atingem o osso subcondral. Conservador; em lesões sintomáticas com falha conservadora: debridamento artroscópico ou técnicas biológicas
Grau III Profunda Lesão >50% da espessura, sem expor osso. Fissuras profundas. Cartilagem estruturalmente comprometida. Microfractura (<2cm²), OATS, ACI/MACI — dependendo da dimensão, localização e idade
Grau IV Espessura Total Cartilagem totalmente destruída com osso subcondral exposto. Osteocondral. Técnicas de restauração osteocondral (OATS, OCA, ACI/MACI com suporte ósseo), prótese em casos seleccionados

Tratamentos Disponíveis

A escolha do tratamento depende do grau, dimensão, localização da lesão, idade e nível de actividade do doente.

Modificação de Actividade

Redução de actividades de alto impacto. Substituição por natação, ciclismo, exercícios em piscina. Fundamental como base de qualquer tratamento.

Todos os graus — 1ª linha
Evidência boa

Anti-inflamatórios e Analgésicos

Controlo sintomático da dor e inflamação. Paracetamol preferível para uso crónico. NSAIDs para crises agudas com cautela renal e GI.

Graus I–II, flares de artrose
Evidência boa (sintomático)

Fisioterapia e Fortalecimento

Fortalecimento do quadricípite, isquiotibiais e estabilizadores do joelho. Reduz a carga articular e melhora a função. Comprovadamente eficaz em artrose moderada.

Todos os graus
Evidência sólida

Controlo de Peso

Cada kg de peso extra gera 4–6 kg de carga adicional no joelho. A perda de peso é uma das intervenções com maior impacto na progressão da artrose.

Sobrepeso com artrose
Evidência robusta

Microfractura

Perfurações no osso subcondral para libertar células estaminais e formar fibrocartilagem de reparação. Mais eficaz em lesões <2 cm². Resultado inferior ao da cartilagem hialina original.

Lesões focais <2 cm², Grau III–IV
Evidência moderada

OATS / Mosaicoplastia

Transplante de cilindros osteocondrais de zona não-portante para a lesão. Cartilagem hialina verdadeira. Limita-se a lesões até ~4 cm² pela disponibilidade de dador.

Lesões 1–4 cm², Grau III–IV
Boa evidência

ACI / MACI

Implante de condrócitos autólogos (células da própria cartilagem, cultivadas em laboratório) numa membrana de colagénio. Resultados duradouros em lesões grandes. Taxa de sucesso ~80% a 5 anos.

Lesões >2–3 cm², Grau III–IV, jovens
Evidência sólida

Transplante Osteocondral (OCA)

Transplante de cartilagem e osso subcondral de banco (cadáver). Para lesões extensas ou com comprometimento ósseo onde o OATS autólogo é insuficiente.

Lesões extensas (>4 cm²), Grau IV
Evidência moderada

Prótese Unicompartimental

Substituição de apenas um compartimento do joelho. Para artrose limitada a um compartimento com mau eixo. Preserva estruturas do joelho contra o não-afectado.

Artrose unicompartimental, >50–55 anos
Excelentes resultados

Prótese Total do Joelho

Substituição completa das superfícies articulares. Última linha — para artrose avançada sintomática que falhou todas as outras opções. >90% de joelhos funcionam 15–20 anos.

Artrose avançada, sem alternativa
Evidência excelente

Corticosteróides Intra-articulares

Alívio rápido de dor e inflamação em crises agudas. Efeito temporário (semanas a meses). Uso repetido pode acelerar degenerescência condral — limitar a 3–4/ano.

Crises agudas, artroses sintomáticas
Efeito sintomático

Ácido Hialurónico ("Viscossuplementação")

Melhora a lubrificação articular. Alívio sintomático moderado em artrose ligeira a moderada. Não regenera cartilagem — não deve ser apresentada como tratamento "regenerativo".

Artrose Grau I–II, alívio sintomático
Efeito modesto

PRP (Plasma Rico em Plaquetas)

Concentrado de factores de crescimento do próprio sangue. Evidência emergente para artrose ligeira e lesões tendinosas. Não regenera cartilagem de forma consistente — o termo "regenerativo" é impreciso.

Artrose ligeira, tendinopatias
Evidência moderada

⚠ Nota sobre Injecções "Regenerativas"

O PRP e o ácido hialurónico são frequentemente comercializados como tratamentos "regenerativos" da cartilagem. A evidência científica actual não suporta esta afirmação. Estas injecções podem oferecer alívio sintomático — mas não reparam o dano estrutural da cartilagem. A decisão de as realizar deve ser baseada em expectativas realistas e em indicações clínicas precisas.

A Dimensão da Lesão Orienta a Técnica

Em termos gerais, a dimensão e profundidade da lesão condral focal determinam a técnica cirúrgica de reparação mais adequada.

<2 cm²

Microfractura

Técnica mais simples, resultados bons a curto prazo. Forma fibrocartilagem — funcionalmente inferior à cartilagem hialina a longo prazo.

1–4 cm²

OATS / Mosaicoplastia

Transplante de cartilagem hialina verdadeira da área não-portante. Limitada pela disponibilidade de dador autólogo.

>2–3 cm²

ACI / MACI

Ideal para lesões grandes em doentes jovens. Células cultivadas formam cartilagem de tipo hialino. Resultados duradouros a 5–10 anos.

Dúvidas sobre Cartilagem

A cartilagem hialina articular tem capacidade de auto-regeneração muito limitada — não tem vasos sanguíneos. As técnicas de restauração cartilaginosa (microfractura, MACI, OATS) induzem a formação de novo tecido, mas a cartilagem formada é fibrocartilagem ou cartilagem "hialina-like" — nunca exactamente igual à original.
Não existe evidência científica robusta de que qualquer tipo de injecção regenere cartilagem articular. O ácido hialurónico e o PRP podem oferecer alívio sintomático temporário em fases iniciais de artrose, mas não reparam o dano estrutural. Devem ser considerados como tratamento sintomático, não regenerativo.
A prótese é a última linha de tratamento, quando todas as outras opções falharam. Muitos doentes com artrose moderada controlam os sintomas com fisioterapia, perda de peso, modificação de actividade e tratamento medicamentoso durante anos. A prótese é reservada para artrose avançada com limitação funcional significativa que não responde ao tratamento conservador.
Em doentes jovens com lesões focais, as técnicas de restauração cartilaginosa (OATS, ACI/MACI) têm os melhores resultados. O objectivo é preservar o joelho nativo o máximo possível e adiar a eventual necessidade de prótese. A avaliação com um especialista é essencial para determinar a técnica mais adequada à dimensão e localização da lesão.
O custo depende da via de tratamento. SIGIC (SNS): através do vale de cirurgia, a cirurgia é totalmente comparticipada — sem custo para o doente. Seguros e subsistemas de saúde: cirurgia convencionada, conforme o seu plano. Particular: orçamento personalizado — a título indicativo, a partir de €3.000 na artroscopia (menisco, ligamentos ou cartilagem, incluindo a reconstrução do ligamento cruzado anterior) e a partir de €8.000 na prótese do joelho. Os valores finais dependem do caso clínico, do hospital e dos implantes. Para um orçamento certo, marque uma consulta ou veja preços e orçamentos.
NC

Dr. Nuno Camelo Barbosa

Cirurgião Ortopédico · Subespecialista de Joelho
Hospital Lusíadas Porto · Hospital Misericórdia Vila do Conde · Paços de Ferreira

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Referências

Guidelines de sociedades científicas e revisões que sustentam esta informação.

  1. Autologous chondrocyte implantation (ACI) for cartilage defects of the knee — DGOU guideline. The Knee, 2016.
  2. International Cartilage Regeneration & Joint Preservation Society (ICRS) — classificação e tratamento da cartilagem.
Dr. Nuno Camelo Barbosa
Dr. Nuno Camelo Barbosa
Cirurgião ortopédico · Subespecialista em cirurgia do joelho
Revisor científico (AJSM · KSSTA · OJSM · JEO)
Última revisão médica: 24 de julho de 2026
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Evidência científica

O Que Diz a Literatura Mais Recente

Esta secção é revista periodicamente à luz dos estudos de maior nível de evidência — meta-análises, revisões sistemáticas, ensaios aleatorizados e normas de sociedades científicas.

Já fiz uma microfractura que não resultou. O que se pode fazer a seguir?
É uma situação frequente e não é um beco sem saída. Um ensaio aleatorizado com 390 doentes, todos com uma cirurgia de cartilagem anterior falhada, comparou o implante de condrócitos autólogos com as alternativas cirúrgicas habituais e seguiu-os durante 10 anos: o implante manteve melhor função do joelho (cerca de 7 pontos no Lysholm), embora as taxas de falência ao fim de uma década tenham sido semelhantes nos dois grupos. O dado mais útil desse estudo é outro: quem já tinha feito microfractura teve pior resultado com as técnicas alternativas, mas não com o implante de condrócitos. Qual a opção certa no seu caso depende do tamanho e da localização da lesão, do alinhamento da perna e do estado do resto da articulação.[1]
Existe algum implante que substitua a cartilagem danificada?
Há andaimes (scaffolds) que se colocam no defeito para que o próprio organismo o preencha, e um deles tem agora resultados a 5 anos. Num ensaio aleatorizado em 26 centros e 8 países, com 251 doentes, um implante à base de aragonite deu melhores pontuações de função e dor do que a microfractura ou o desbridamento (81 contra 59 no KOOS) e menos falências (15% contra 36%), incluindo em doentes que já tinham artrose ligeira a moderada. Duas ressalvas honestas: vários autores do estudo declaram ligação à indústria do implante, e o resultado é de um implante concreto, não de todos os andaimes. É uma opção a discutir em consulta, não uma indicação automática.[2]
Um fragmento de cartilagem que se soltou pode ser colado de volta?
Durante muito tempo assumiu-se que um fragmento só de cartilagem, sem osso agarrado, não tinha capacidade de colar e devia ser removido. A leitura mudou. Uma revisão sistemática de 2025 reuniu 18 estudos e 76 doentes — quase todos adolescentes e adultos jovens — em que esses fragmentos foram fixados: cicatrizaram em 96% dos casos e 86% voltaram ao desporto, em média aos 10 meses. São estudos pequenos, mas o resultado alinha com a experiência clínica: em crianças e adolescentes, fixar um fragmento recente de cartilagem funciona bem, e em mãos experientes é hoje a abordagem a preferir em vez de o remover. O que mais decide é a rapidez — um fragmento recente, num joelho jovem, tem muito mais hipóteses do que um fragmento antigo.[3]
Vale a pena juntar concentrado de medula óssea à cirurgia da cartilagem?
A ideia é boa e o resultado, para já, é modesto. Num ensaio aleatorizado de 2026 com 36 doentes submetidos a transplante de aloenxerto osteocondral, acrescentar concentrado de medula óssea melhorou a integração do osso do enxerto na tomografia aos 3 meses — mas essa vantagem já não existia aos 6 nem aos 12 meses, e ao fim de 2 anos não houve qualquer diferença nas queixas ou na função. Por outras palavras: houve um efeito visível na imagem que não se traduziu no que o doente sente. É um estudo pequeno e não fecha a questão, mas não justifica, hoje, apresentar a medula óssea como um extra que muda o resultado.[4]

Referências

Última revisão clínica: setembro de 2026 · Dr. Nuno Camelo

  1. Ten year follow-up of a randomized trial of autologous chondrocyte implantation versus alternative forms of surgical cartilage management in the knee.Ensaio clínico aleatorizado
    Snow M, Middleton L, Mehta S, Roberts A, Richardson J, Kuiper JH. Osteoarthritis and Cartilage. 2026.
    Trezentos e noventa doentes entre os 18 e os 55 anos, todos com uma cirurgia anterior à cartilagem que não resultou, seguidos durante 10 anos. O implante de condrócitos autólogos manteve melhor função do joelho do que as alternativas cirúrgicas (7,3 pontos no Lysholm), mas as taxas de falência aos 10 anos foram semelhantes nos dois grupos (29% e 25%). O resultado do implante não foi prejudicado por uma microfractura prévia; o das alternativas foi.
    Ver estudo ↗
  2. Five-year follow-up of a multicenter randomized controlled trial comparing an aragonite-based scaffold with microfracture and debridement for chondral and osteochondral knee lesions.Ensaio clínico aleatorizado
    Altschuler N, Zaslav KR, Di Matteo B, Sherman SL, Gomoll AH, Verdonk P, et al. The American Journal of Sports Medicine. 2026.
    Ensaio aleatorizado em 26 centros de 8 países, 251 doentes seguidos 5 anos. O implante de aragonite associou-se a melhor pontuação KOOS do que a microfractura ou o desbridamento (81,0 contra 59,1) e a menos falências (15,0% contra 35,7%). A vantagem manteve-se no subgrupo com artrose ligeira a moderada, habitualmente excluído deste tipo de estudos. Vários autores declaram ligação à indústria do implante.
    Ver estudo ↗
  3. Direct fixation of acute chondral-only fragments in young patients.Revisão sistemática
    Walker PB, Araujo G, Sridharan M, Edogun E, Sheppard WL, Kremen TJ, et al. Cartilage. 2025.
    Dezoito estudos, 76 doentes com idade média de 14,3 anos, em que um fragmento só de cartilagem — sem osso — foi fixado em vez de removido. Cicatrização em 96% dos casos e regresso ao desporto em 86%, em média aos 10,3 meses. São números animadores, mas de estudos pequenos e sem grupo de comparação: os próprios autores pedem ensaios prospectivos.
    Ver estudo ↗
  4. Bone marrow aspirate concentrate improves the early osseous integration of fresh osteochondral allografts in the knee: a randomized controlled trial.Ensaio clínico aleatorizado
    Gelber PE, Ramírez-Bermejo E, Caviasso G, Juncosa-Chacón J, Fariñas O. The American Journal of Sports Medicine. 2026.
    Trinta e seis doentes com aloenxerto osteocondral fresco, aleatorizados a receber ou não concentrado de medula óssea, com TC aos 3, 6 e 12 meses. A integração do osso do enxerto foi melhor aos 3 meses no grupo com medula, mas a diferença desapareceu aos 6 e 12 meses, e não houve qualquer diferença nos resultados clínicos aos 2 anos.
    Ver estudo ↗

Estas referências são material de apoio e não substituem uma avaliação clínica. A aplicação de qualquer destes resultados ao seu caso depende do exame do seu joelho.

Vídeo Cirúrgico

Remoção de corpo livre