Ligamento Cruzado Anterior

Rotura do LCA — Tenho de ser Operado?

A rotura do ligamento cruzado anterior é uma das lesões do joelho mais comuns. A decisão cirúrgica não é automática — depende de si, do seu joelho e do seu estilo de vida.

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~200 000Roturas/ano na Europa
70–80%Lesões desportivas
9–12 mesesRetorno ao desporto
90–95%Sucesso da reconstrução

O Ligamento que Estabiliza o Joelho

O ligamento cruzado anterior (LCA) é uma das estruturas mais importantes da estabilidade do joelho. Controla a translação anterior da tíbia em relação ao fémur e resiste à rotação interna — movimentos essenciais em mudanças de direcção, travagens e saltos.

A rotura do LCA ocorre tipicamente em mecanismos de desaceleração súbita, pivotagem ou contacto com outro jogador. O doente frequentemente ouve ou sente um "estalo", seguido de dor aguda e inchaço rápido do joelho.

Cada episódio de instabilidade — a sensação de "falhar" do joelho — pode provocar novas lesões dos meniscos e da cartilagem. Por isso, a decisão terapêutica não deve ser adiada indefinidamente.

A rotura do LCA raramente cicatriza espontaneamente. Sem tratamento adequado, o joelho instável acumula lesões secundárias que agravam o prognóstico a longo prazo.

Cirurgia ou Tratamento Conservador?

Esta é a questão central na rotura do LCA. A resposta não é universal — depende de factores individuais que o especialista avaliará em consulta.

✓ Tratamento Conservador

  • Baixo nível de actividade física (sedentário)
  • Joelho estável sem episódios de instabilidade
  • Sem lesões meniscais ou ligamentares associadas
  • Idade avançada com demandas funcionais baixas
  • Recusa do risco cirúrgico / anestésico
  • Fase aguda com AMI grave — pode ser necessário estabilizar primeiro

→ Reconstrução Cirúrgica

  • Doente activo com instabilidade recorrente
  • Praticante de desportos com pivotagem (futebol, basquete, ski)
  • Lesões meniscais ou condrais associadas a tratar
  • Falha do tratamento conservador
  • Jovem com elevadas expectativas de retorno ao desporto
  • Lesão combinada multi-ligamentar
Nota clínica: A investigação actual (revisão sistemática 2024) mostra que o tratamento conservador pode ser adequado para doentes seleccionados — mas o risco de lesões secundárias meniscais e condrais em joelhos instáveis é real e cumulativo. A decisão requer avaliação individualizada.

Tipos de Enxerto para Reconstrução do LCA

A reconstrução do LCA utiliza um enxerto de tendão para substituir o ligamento. A escolha do enxerto é individualizada e influencia o resultado a longo prazo.

Isquiotibiais (Semitendinoso)

Enxerto mais utilizado. Morbilidade de colheita reduzida, boa resistência mecânica. Pode ser associado ao gracilis para maior volume.

Mais utilizado

Tendão Rotuliano (BTB)

Enxerto osso-tendão-osso. Integração óssea mais rápida — favorecido em desportos de elite e reconstruções primárias de alta exigência.

Desporto de elite

Tendão Quadricipital

Crescentemente utilizado. Grande volume de enxerto, morbilidade aceitável, boa integração. Opção válida sobretudo em doentes mais velhos.

Tendência crescente

Enxerto de Banco (Aloenxerto)

Tecido de dador. Sem morbilidade de colheita — reservado para revisões ou situações específicas com escassez de enxerto autólogo.

Revisões / casos complexos

Protocolo SANTI — Abordagem de Lyon

O protocolo SANTI (desenvolvido pelo Prof. Bertrand Sonnery-Cottet no Centre Orthopédique Santy, Lyon) integra a avaliação e tratamento da inibição artrogénica muscular (AMI) no protocolo cirúrgico do LCA — um diferenciador de resultado que poucos centros aplicam sistematicamente.

01

Avaliação Pré-Operatória da AMI

Classificação da inibição do quadricípite antes da cirurgia. Em casos seleccionados, a cirurgia é adiada até resolução da AMI.

02

Cirurgia + Ligamentoplastia Lateral

Reconstrução do LCA associada, quando indicado, à tenodese extra-articular (técnica de Lemaire ou Anterolateral, refinada por Sonnery-Cottet) para controlo da rotação.

03

Reabilitação Neuromotora Pós-Op

Protocolo de reactivação do quadricípite e tratamento da AMI residual desde o primeiro dia de pós-operatório.

Saber mais sobre a AMI (inibição do quadricípite) →

Marco a Marco — Retorno ao Desporto

O retorno precoce antes dos 9 meses está associado a maior risco de re-rotura. Os critérios de força e funcionais são mais importantes do que o tempo.

Dia 1
Marcha com canadianas. Activação do quadricípite.
2–4 sem
Marcha sem apoio. Extensão e flexão a 90°.
6 sem
Bicicleta ergométrica. Força progressiva.
3–4 meses
Corrida em linha recta. Propriocepção avançada.
6 meses
Mudanças de direcção. Avaliação de força isocinética.
9–12 meses
Retorno ao desporto de contacto após critérios validados.

Dúvidas sobre o LCA

Não necessariamente. A imagem não substitui a avaliação clínica. Doentes com joelhos estáveis e baixa exigência desportiva podem ser tratados de forma conservadora com sucesso. A decisão depende do nível de actividade, da presença de instabilidade e de lesões associadas.
O timing óptimo depende da presença de inibição artrogénica (AMI) e do derrame articular. Operar com AMI grave ou joelho muito inflamado aumenta o risco de artrofibrose. Em muitos casos, é preferível aguardar 3–6 semanas após a lesão aguda para recuperar amplitude articular e activação muscular antes da cirurgia.
Não existe um enxerto universalmente superior. O tendão rotuliano (BTB) tem integração óssea mais rápida e é frequentemente preferido em desporto de elite. Os isquiotibiais têm menor morbilidade de colheita. O tendão quadricipital ganha crescente popularidade. A escolha deve ser individualizada com o seu cirurgião.
Sim — a grande maioria dos doentes regressa ao desporto de nível pré-lesional. O retorno ao futebol de contacto é tipicamente entre os 9 e os 12 meses, condicionado ao cumprimento de critérios de força (>90% simetria quadricípite) e testes funcionais validados. O retorno precoce antes dos 9 meses aumenta significativamente o risco de re-rotura.
A tenodese extra-articular (técnica de Lemaire ou Anterolateral, refinada por Sonnery-Cottet) é um procedimento adicional à reconstrução do LCA para controlar a rotação interna excessiva do joelho. Hoje em dia as suas indicações abrangem muitos casos clínicos — e não apenas alguns doentes seleccionados: reduzem a taxa de re-rotura do LCA e protegem os meniscos reparados, tendo-se tornado uma das principais "redescobertas" da cirurgia do joelho nos últimos anos. Está indicada em doentes com hiperlaxidez, desportos de alta rotação ou história de instabilidade importante. Não é aplicada em todos os casos.
NC

Dr. Nuno Camelo Barbosa

Cirurgião Ortopédico · Subespecialista de Joelho
Hospital Lusíadas Porto · Hospital Misericórdia Vila do Conde · Paços de Ferreira

LCAExtra-articularEstabilidade ligamentar

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SAMBBA — Reconstrução do LCA