Infiltrações do Joelho:
"Regenerativas" vs. Não-Regenerativas

Existem infiltrações que apenas controlam os sintomas — e infiltrações comercialmente designadas de "regenerativas", que tentam modificar a biologia do joelho. Compreender esta distinção, e os seus limites reais, é essencial para tomar uma decisão informada.

NC
Dr. Nuno Camelo
Cirurgião de Joelho · Hospital Lusíadas Porto
Nota Clínica Importante

Apesar dos esforços da investigação científica e do entusiasmo comercial em torno das chamadas infiltrações "regenerativas", não existe actualmente evidência robusta de que qualquer tipo de infiltração — PRP, ácido hialurónico ou qualquer outra — seja capaz de regenerar a cartilagem articular do joelho. O que estas substâncias podem fazer é modificar o ambiente biológico da articulação, reduzir a inflamação de forma mais sustentada e, em alguns casos, abrandar a progressão da doença — mas não reconstituir cartilagem destruída. O uso das aspas em "regenerativa" ao longo desta página é intencional e reflecte este posicionamento clínico.

Infiltrações "Regenerativas"
PRP · Ácido Hialurónico
Infiltrações Não-Regenerativas
Corticosteroides
Comparação Directa
Quando usar cada uma
Conceito Fundamental

A distinção que a maioria dos doentes não conhece

Quando falamos de "infiltração ao joelho", estamos na realidade a falar de dois grupos com mecanismos de acção, objectivos clínicos e perfis de risco diferentes. Um trata o sintoma directamente. O outro tenta influenciar a biologia articular — razão pela qual é chamado "regenerativo", embora este termo não deva ser interpretado como sinónimo de reconstrução de cartilagem.

Grupo 1
Infiltrações "Regenerativas"
Designação comercial e científica para substâncias que actuam no microambiente articular — podendo reduzir a inflamação de forma mais sustentada, melhorar a lubrificação ou influenciar o metabolismo da cartilagem. Não reconstituem cartilagem destruída.
  • ✦Actuam na biologia articular, não apenas nos sintomas
  • ✦Efeitos mais duradouros, mas de instalação mais gradual
  • ✦Menor risco de deterioração articular com uso repetido
  • ✦Melhor candidatos: gonartroses ligeiras a moderadas, tendinopatias
Grupo 2
Infiltrações Não-Regenerativas
Suprimem a inflamação de forma rápida e potente, mas sem efeito modificador da doença. São uma ferramenta de controlo sintomático — valiosa em determinados contextos, mas com limitações claras.
  • ▸Alívio rápido — efeito em 24 a 72 horas
  • ▸Efeito temporário: semanas a poucos meses
  • ▸Uso repetido pode deteriorar a cartilagem articular
  • ▸Melhor candidatos: crises inflamatórias agudas, preparação cirúrgica
Infiltrações "Regenerativas"

Influenciar a biologia — não reconstituir cartilagem

Estas infiltrações utilizam substâncias com um papel activo no microambiente articular — reduzindo a inflamação de forma mais sustentada, melhorando a lubrificação ou modulando o metabolismo sinovial. O termo "regenerativa" é amplamente usado na literatura e na prática clínica, mas deve ser entendido com rigor: nenhuma destas substâncias demonstrou, em ensaios clínicos controlados, capacidade de reconstituir cartilagem articular macroscopicamente perdida.

"Regenerativa"
PRP — Plasma Rico em Plaquetas
Sangue autólogo concentrado em factores de crescimento
+

Como funciona

Uma pequena amostra do sangue do doente é centrifugada para concentrar as plaquetas. Esta preparação — rica em factores de crescimento (PDGF, TGF-β, VEGF) — é injectada na articulação, criando um ambiente anti-inflamatório e pró-anabólico que pode reduzir a sinovite crónica e influenciar o metabolismo da cartilagem. Não existe evidência de reconstituição de cartilagem perdida.

O que esperar

  • Efeito analgésico inicial nas primeiras semanas
  • Pico de eficácia entre a 6.ª e a 12.ª semana
  • Duração média: 6 a 12 meses (varia com grau de artrose)
  • Protocolo habitual: 1 a 3 injecções com intervalo de 2 a 4 semanas

Indicações principais

Gonartroso grau I–III Tendinopatia rotuliana Lesões da cartilagem Pós-cirurgia artroscópica

Perfil de segurança

  • Produto autólogo — sem risco de reacção alérgica sistémica
  • Pode ocorrer dor/edema local nas 48–72h após injecção
  • Não deteriora a cartilagem com uso repetido
  • Sem interacção com anticoagulantes orais na maioria dos protocolos
Evidência: Meta-análises recentes (NEJM, JBJS) confirmam superioridade do PRP face ao ácido hialurónico e ao placebo na gonartrose ligeira a moderada, com benefício estatisticamente significativo aos 12 meses. A qualidade do PRP (concentração plaquetária, leucócitos) e a selecção do doente determinam o resultado.
"Regenerativa" · Viscossuplementação
Ácido Hialurónico
Viscossuplementação — melhoria da lubrificação articular
+

Como funciona

O ácido hialurónico (AH) é um componente natural do líquido sinovial. Na osteoartrose, a sua concentração e viscosidade diminuem. A injecção de AH exógeno restaura as propriedades viscoelásticas do líquido articular, reduzindo o atrito e melhorando a amortização. Exerce também um efeito anti-inflamatório indirecto via receptores CD44. Não regenera cartilagem, mas pode retardar a sua degradação em alguns contextos.

O que esperar

  • Efeito gradual: 4 a 8 semanas após a última injecção
  • Duração: 6 a 12 meses (formulações de alto peso molecular)
  • Protocolo: 1 injecção (formulações crosslinkadas) ou 3–5 semanais
  • Repetição possível sem deterioração articular

Indicações principais

Gonartrose grau I–III Lesões precoces da cartilagem Doente não candidato a corticoide Complemento à fisioterapia

Tipos disponíveis

  • Baixo peso molecular (ex. Ostenil) — 3 a 5 injecções semanais
  • Alto peso molecular crosslinkado (ex. Durolane, Monovisc) — dose única
  • Formulações combinadas com PRP — protocolo emergente
Evidência: A ESCEO (European Society for Clinical and Economic Aspects of Osteoporosis) e a EULAR incluem a viscossuplementação nas guidelines de gonartrose. A eficácia varia com o grau de artrose e o peso molecular da formulação. Gonartrose avançada (grau IV) responde menos. A combinação com PRP apresenta resultados preliminares promissores.
Infiltrações Não-Regenerativas

Controlo rápido da inflamação — com limites claros

Os corticosteroides são a infiltração mais prescrita no mundo. São muito eficazes no curto prazo, mas o seu uso repetido levanta questões clínicas importantes que o seu médico deve ponderar consigo.

Não-Regenerativa · Anti-inflamatória
Corticosteroides
Betametasona, Triamcinolona, Metilprednisolona — injecção intra-articular
+

Como funciona

Os corticosteroides intra-articulares suprimem a cascata inflamatória via receptores de glucocorticoides nas células sinoviais — inibindo prostaglandinas, citocinas pró-inflamatórias (IL-1β, TNF-α) e mediadores da dor. O resultado é uma redução rápida e potente da sinovite e do derrame articular.

O que esperar

  • Alívio em 24 a 72 horas após a injecção
  • Efeito máximo: 1 a 2 semanas
  • Duração: 4 a 8 semanas (varia entre doentes)
  • Recomendação: máximo 3 a 4 injecções por articulação por ano

Indicações principais

Crise inflamatória aguda Sinovite com derrame Preparação para evento Gonartrose avançada sintomática

Riscos e limitações

  • Uso repetido associado a perda de cartilagem articular (estudos RMN)
  • Pode mascarar a progressão da doença subjacente
  • Risco aumentado de infecção articular em doentes diabéticos (transitório)
  • Não usar em doentes a planear artroplastia nos 3 meses seguintes
  • "Flare" pós-injecção em 2–10% dos casos (dor nas primeiras 48h)
⚠
Nota clínica importante: Estudos de RMN longitudinal (Raynauld et al., NEJM; McAlindon et al., JAMA 2017) demonstraram maior perda de volume de cartilagem a 2 anos em doentes com gonartrose que receberam injecções repetidas de corticosteroide vs. soro fisiológico. Este dado não invalida o seu uso, mas deve orientar a selecção do doente e a frequência de administração.
Comparação Directa

As três opções em paralelo

Parâmetro Corticosteroide Ácido Hialurónico PRP
Tipo Não-regenerativa "Regenerativa" "Regenerativa"
Início de efeito 24–72 horas 4–8 semanas 4–12 semanas
Duração do efeito 4–8 semanas 6–12 meses 6–12+ meses
Efeito na cartilagem Potencialmente negativo Neutro / protector Sem regeneração; pode abrandar degradação
N.º de injecções 1 1–5 (conforme produto) 1–3 (protocolo)
Uso repetido Limitado (<4/ano) Seguro Seguro
Melhor indicação Crise aguda, sinovite Gonartrose crónica leve-moderada Gonartrose + lesão activa
Uso pré-cirúrgico Evitar nos 3 meses antes Sem contraindicação Pode acelerar recuperação
O que diz a evidência

O que dizem os estudos científicos

As infiltrações têm um papel comprovado no alívio dos sintomas — mas a investigação é clara num ponto essencial: aliviam temporariamente e melhoram a função; não curam a artrose nem reconstroem cartilagem. São ferramentas para ganhar tempo e qualidade de vida, não uma solução definitiva.

Corticosteroide — alívio rápido, mas curto e a usar com critério.

Um ensaio clínico aleatorizado de 2 anos (JAMA, McAlindon et al., 2017) mostrou que infiltrações de corticosteroide de 3 em 3 meses não melhoraram a dor face a soro fisiológico e se associaram a maior perda de cartilagem. Por isso reservamos o corticosteroide para crises inflamatórias (sinovite) e limitamos a sua repetição.

PRP (plasma rico em plaquetas) — melhoria real dos sintomas, mas não "regenera" cartilagem.

Uma meta-análise de ensaios aleatorizados de nível 1 (Am J Sports Med, Bensa et al., 2025) concluiu que o PRP dá melhoria clinicamente relevante da dor e da função até 6–12 meses, e que a concentração de plaquetas influencia o resultado. Outra meta-análise (Am J Sports Med, Belk et al., 2020) mostrou o PRP superior ao ácido hialurónico no controlo dos sintomas. É aqui que importa ser honesto sobre o termo "regenerativo": o PRP pode influenciar a biologia da articulação — modular a inflamação e o ambiente — mas não faz nascer cartilagem nova. O efeito é sintomático e biológico, não uma reconstrução estrutural.

Ácido hialurónico (viscossuplementação) — efeito modesto e debatido.

Funciona sobretudo como lubrificante e amortecedor em artrose ligeira a moderada. O benefício sintomático é geralmente ligeiro e variável entre estudos e produtos.

Outras opções no mercado (ozono, concentrado de medula óssea/BMAC, "células estaminais").

Permanecem experimentais, sem evidência robusta que sustente o uso rotineiro. Devem ser encaradas com prudência e sem promessas de "cura".

Conclusão: nenhuma infiltração é uma solução definitiva. A escolha certa — corticosteroide, ácido hialurónico ou PRP — depende do seu caso, do grau de artrose e dos seus objetivos. As referências dos estudos citados encontram-se no fim desta página.

Guia de Decisão

Qual é a certa para o seu caso?

Cada situação clínica é diferente. Estes cenários ilustram o raciocínio, mas a decisão final é sempre feita após avaliação.

Cenário A
"Tenho dor intensa há 3 dias, o joelho está inchado e quero alívio rápido."
Crise inflamatória aguda com sinovite. O corticosteroide é a opção mais indicada para controlo rápido dos sintomas.
→ Corticosteroide
Cenário B
"Tenho artrose do joelho grau II. A dor é crónica e quero evitar a cirurgia."
Doença crónica sem crise aguda. PRP ou ácido hialurónico (conforme grau de lesão e perfil do doente) são as opções de primeira linha.
→ PRP ou Ácido Hialurónico
Cenário C
"Tenho tendinopatia rotuliana. Já tentei fisioterapia durante 3 meses sem melhoria."
Tendinopatia crónica refractária. O PRP tem a melhor evidência neste contexto. Os corticosteroides estão contraindicados em tendões (risco de ruptura).
→ PRP
Cenário D
"Vou fazer uma cirurgia ao joelho daqui a 6 meses. Posso fazer uma infiltração para gerir a dor entretanto?"
Evitar corticosteroides nos 3 meses que antecedem a cirurgia (risco infeccioso aumentado). Ácido hialurónico ou PRP são alternativas seguras.
→ Ácido Hialurónico ou PRP
O Procedimento

Como se realiza uma infiltração

Todas as infiltrações são realizadas em contexto de consulta. O procedimento é rápido, bem tolerado e não requer internamento.

1
Avaliação
Confirmação da indicação, análise de exames de imagem, exclusão de contraindicações.
2
Preparação
Assepsia rigorosa. Posicionamento do joelho. Eco-guiada sempre que indicado para maior precisão.
3
Injecção
Procedimento de 2 a 5 minutos. Desconforto mínimo. Aspiração de derrame se presente.
4
Pós-procedimento
Repouso relativo 24–48h. Retoma da actividade habitual em 2 a 3 dias. Seguimento agendado.
Perguntas Frequentes

O que os doentes mais perguntam

Quanto custam as infiltrações do joelho?
O preço depende do tipo de infiltração e da via (SNS, seguro ou particular). Em regime particular e a título indicativo:
• Corticosteroide — desde cerca de €100.
• Ácido hialurónico (viscossuplementação) — desde cerca de €200 (conforme a marca e o protocolo: dose única de alto peso molecular ou 3–5 injeções).
• PRP (plasma rico em plaquetas) — desde cerca de €350.
• Células estaminais e Artrosamid® (opções mais recentes) — desde cerca de €2.500, mas ainda sem evidência científica robusta que justifique o custo.
O valor final depende do produto, do número de sessões e da unidade.
A infiltração vai curar a minha artrose?
Nenhuma infiltração cura a artrose — é uma doença degenerativa crónica sem cura definitiva conhecida (a não ser a substituição protésica). O que as infiltrações podem fazer é controlar os sintomas, abrandar a progressão (especialmente o PRP e o AH) e melhorar a qualidade de vida. O objectivo é gerir a artrose a longo prazo, não eliminar a doença.
Posso fazer corticosteroides repetidamente se me ajudam?
Esta é uma das questões mais importantes na prática clínica. Os corticosteroides são eficazes no curto prazo, mas estudos de RMN a longo prazo mostram perda de volume de cartilagem com uso repetido. A recomendação actual é não exceder 3 a 4 injecções por articulação por ano, e explorar alternativas ditas "regenerativas" — PRP ou ácido hialurónico — para controlo crónico da dor.
O PRP é comparticipado pelo SNS ou pelos seguros de saúde?
Em Portugal, o PRP não está actualmente comparticipado pelo SNS para gonartrose. Alguns seguros de saúde privados cobrem parcialmente, mas varia com a apólice. O ácido hialurónico tem comparticipação pelo SNS em determinadas condições. O corticosteroide intra-articular é amplamente comparticipado. Recomendo confirmar a cobertura com o seu seguro antes da consulta.
Posso fazer uma infiltração e depois operar ao joelho?
Depende do tipo. Os corticosteroides intra-articulares aumentam o risco de infecção peri-cirúrgica — a recomendação é um intervalo mínimo de 3 meses antes de qualquer cirurgia articular. O ácido hialurónico e o PRP não têm esta contraindicação. É fundamental informar o cirurgião de qualquer infiltração recente antes de uma intervenção.
Tenho diabetes. Posso fazer uma infiltração de corticosteroide?
Sim, mas com precaução. Os corticosteroides intra-articulares podem causar elevação transitória da glicemia nas 24 a 72 horas após a injecção — especialmente em diabéticos com controlo menos rigoroso. O risco é real mas geralmente controlável. Informe sempre o seu médico do estado do diabetes. Em doentes diabéticos com gonartrose crónica, as opções ditas "regenerativas" — PRP ou ácido hialurónico — são frequentemente preferíveis para uso repetido.
Qual é a diferença entre as marcas de ácido hialurónico (Ostenil, Durolane, Monovisc)?
A principal diferença está no peso molecular e na presença ou ausência de crosslinking (ligações cruzadas entre cadeias de AH). Os produtos crosslinkados de alto peso molecular (Durolane, Monovisc) são administrados numa única injecção e têm maior duração teórica. Os produtos de baixo peso molecular (Ostenil) requerem 3 a 5 injecções semanais mas têm um custo unitário inferior. A escolha depende do grau de artrose, preferência do doente e contexto clínico.

Quer saber qual a infiltração indicada para o seu joelho?

A selecção correcta depende do diagnóstico, do grau de artrose, da história clínica e dos seus objectivos. Agende uma consulta para uma avaliação individualizada.

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Referências

Guidelines de sociedades científicas e revisões que sustentam esta informação.

  1. McAlindon TE, et al. Effect of Intra-articular Triamcinolone vs Saline on Knee Cartilage Volume and Pain in Knee Osteoarthritis: a randomized clinical trial. JAMA, 2017. PMID 28510679.
  2. Bensa A, et al. PRP Injections for Knee Osteoarthritis: clinically significant improvement influenced by platelet concentration — meta-analysis of RCTs. Am J Sports Med, 2025. PMID 39751394.
  3. Belk JW, et al. Platelet-Rich Plasma Versus Hyaluronic Acid for Knee Osteoarthritis: systematic review and meta-analysis of RCTs. Am J Sports Med, 2020. PMID 32302218.
  4. OARSI guidelines for the non-surgical management of knee osteoarthritis. Osteoarthritis Cartilage, 2019.
  5. AAOS — Management of Osteoarthritis of the Knee (Non-Arthroplasty), 3rd ed.
Dr. Nuno Camelo Barbosa
Dr. Nuno Camelo Barbosa
Cirurgião ortopédico · Subespecialista em cirurgia do joelho
Revisor científico (AJSM · KSSTA · OJSM · JEO)
Última revisão médica: 24 de julho de 2026
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Evidência científica

O Que Diz a Literatura Mais Recente

Esta secção é revista periodicamente à luz dos estudos de maior nível de evidência — meta-análises, revisões sistemáticas, ensaios aleatorizados e normas de sociedades científicas.

O PRP é um tratamento reconhecido para a artrose do joelho?
É um tratamento usado e estudado, mas não é ainda um tratamento padrão. Em 2026 a American Academy of Physical Medicine and Rehabilitation publicou um documento de orientação sobre PRP na artrose do joelho, com revisão estruturada da literatura e consenso formal de peritos: chegou a 5 recomendações baseadas em evidência e 11 boas práticas apoiadas sobretudo em opinião de peritos. O painel manteve como base do tratamento a perda de peso, a fisioterapia, os analgésicos e a infiltração de corticosteroide, e descreveu o PRP como uma área em evolução, à espera de ensaios que definam a dose. É útil ler isto como um enquadramento honesto e não como um travão: o PRP tem lugar, mas em cima da base e não em vez dela.[1]
PRP ou ácido hialurónico — qual deles dura mais?
A comparação directa favorece o PRP a médio prazo. Uma meta-análise publicada na Arthroscopy em 2025, que incluiu apenas ensaios aleatorizados com dupla ocultação — 15 estudos e 1632 doentes com artrose de grau I a III — encontrou aos 12 meses menos dor e melhor função com PRP do que com ácido hialurónico, com uma diferença que atingiu o limiar considerado clinicamente relevante. Repare no calendário: ao primeiro mês a diferença era pequena. Isto encaixa com o que se observa na consulta — o efeito do PRP tende a instalar-se ao longo de semanas. Nenhum dos dois reconstrói cartilagem, e a escolha depende do grau de artrose, do padrão de dor e do que já foi tentado.[2]
As infiltrações "regenerativas" mudam mesmo alguma coisa ao fim de um ano?
Em média sim, mas com uma certeza que convém não exagerar. Uma meta-análise de 2026 reuniu 14 ensaios aleatorizados de terapias biológicas — PRP e terapias com células — todos com pelo menos 12 meses de seguimento: no conjunto houve menos dor e melhor função do que nos comparadores, e alguns estudos descreveram sinais estruturais favoráveis na imagem. Os próprios autores classificam a certeza da evidência como muito baixa, por os protocolos serem muito diferentes entre si e por suspeita de viés de publicação. O que isto significa na prática: o benefício sintomático é plausível e pode durar, a reconstrução de cartilagem destruída continua sem sustentação, e ninguém deve prometer-lhe a segunda coisa para lhe vender a primeira.[3][1]
Como sei se a infiltração está a resultar — e quanto tempo devo esperar?
Os três meses são um marco mais informativo do que a maioria das pessoas imagina. Numa análise de 317 participantes de um ensaio aleatorizado de infiltrações com concentrado de medula óssea, células do cordão umbilical ou fracção vascular estromal, o percurso da dor ao longo de 12 meses dividiu-se em dois grupos nítidos: cerca de dois terços melhoraram de forma sustentada e um terço manteve a dor. E a evolução medida aos 3 meses já permitia prever, com razoável fiabilidade, em qual dos dois o doente estava a cair. A leitura útil é dupla: não julgar o resultado nas primeiras semanas, mas também não prolongar indefinidamente um tratamento que aos 3 meses não deu qualquer sinal. Essa reavaliação faz parte do plano e deve ser marcada à partida.[4]

Referências

Última revisão clínica: setembro de 2026 · Dr. Nuno Camelo

  1. AAPM&R guidance statement on platelet rich plasma for knee osteoarthritis.Norma de orientação clínica
    Borg-Stein J, Jayaram P, Colorado BS, de Luigi AJ, Khadavi M, Latzka E, et al. PM&R. 2026.
    Documento de orientação de um painel de peritos da American Academy of Physical Medicine and Rehabilitation, com revisão estruturada da literatura até junho de 2025 e método Delphi. Resultou em 5 recomendações baseadas em evidência e 11 boas práticas de consenso. O painel mantém como cuidado padrão a perda de peso, a fisioterapia, os analgésicos e a infiltração de corticosteroide, e classifica o PRP como área em evolução, à espera de ensaios aleatorizados que estabeleçam a dose.
    Ver estudo ↗
  2. Platelet-rich plasma is more effective than hyaluronic acid injections for osteoarthritis of the knee: a meta-analysis based on randomized, double-blinded, controlled clinical trials.Meta-análise
    Li YF, Xing HH, Wei CK, Chen YT, Sun YQ, Liu FL, Wu YH, Yang W. Arthroscopy. 2025.
    Quinze ensaios aleatorizados com dupla ocultação, 1632 doentes com artrose de grau I a III. Aos 12 meses, o PRP associou-se a menos dor e melhor função do que o ácido hialurónico, com uma diferença que atingiu o limiar de relevância clínica no índice WOMAC. Ao primeiro mês a vantagem era pequena — o benefício aparece com o tempo, não logo a seguir à infiltração.
    Ver estudo ↗
  3. Clinical outcomes of biologic therapies for knee osteoarthritis: a systematic review and meta-analysis of studies with 12-month or longer follow-up.Meta-análise
    Oka T, Kitagawa T, Nasu T, Kurasawa Y, Kunihara H, Suzuki K, Nakamura N. Modern Rheumatology. 2026.
    Catorze ensaios aleatorizados de terapias biológicas — PRP e terapias celulares — todos com pelo menos 12 meses de seguimento, em artrose de grau I a III. No conjunto houve redução da dor e melhoria da função face aos comparadores, com sinais preliminares de benefício estrutural. Os autores classificam a certeza da evidência como muito baixa, por grande heterogeneidade de protocolos e suspeita de viés de publicação.
    Ver estudo ↗
  4. SPOT: an early detection tool for predicting pain trajectories following intra-articular injections.Ensaio clínico aleatorizado
    Nelson BL, Jayaram P, Boden SD, Mautner K, Gottschalk MB, Myer GD, Drissi H, Diekfuss JA. Journal of Orthopaedic Research. 2026.
    Análise de 317 participantes de um ensaio aleatorizado multicêntrico de infiltrações com concentrado de medula óssea, células do cordão umbilical ou fracção vascular estromal. Ao longo de 12 meses distinguiram-se dois percursos: 66,6% dos doentes melhoraram e 33,4% mantiveram a dor. A resposta aos 3 meses previa com razoável fiabilidade em que grupo o doente estava a cair.
    Ver estudo ↗

Estas referências são material de apoio e não substituem uma avaliação clínica. A aplicação de qualquer destes resultados ao seu caso depende do exame do seu joelho.