Infiltrações do Joelho:
"Regenerativas" vs. Não-Regenerativas
Existem infiltrações que apenas controlam os sintomas — e infiltrações comercialmente designadas de "regenerativas", que tentam modificar a biologia do joelho. Compreender esta distinção, e os seus limites reais, é essencial para tomar uma decisão informada.
Grupo 1
Infiltrações "Regenerativas"
Designação comercial e científica para substâncias que actuam no microambiente articular — podendo reduzir a inflamação de forma mais sustentada, melhorar a lubrificação ou influenciar o metabolismo da cartilagem. Não reconstituem cartilagem destruída.
- ✦Actuam na biologia articular, não apenas nos sintomas
- ✦Efeitos mais duradouros, mas de instalação mais gradual
- ✦Menor risco de deterioração articular com uso repetido
- ✦Melhor candidatos: gonartroses ligeiras a moderadas, tendinopatias
Grupo 2
Infiltrações Não-Regenerativas
Suprimem a inflamação de forma rápida e potente, mas sem efeito modificador da doença. São uma ferramenta de controlo sintomático — valiosa em determinados contextos, mas com limitações claras.
- ▸Alívio rápido — efeito em 24 a 72 horas
- ▸Efeito temporário: semanas a poucos meses
- ▸Uso repetido pode deteriorar a cartilagem articular
- ▸Melhor candidatos: crises inflamatórias agudas, preparação cirúrgica
Como funciona
Uma pequena amostra do sangue do doente é centrifugada para concentrar as plaquetas. Esta preparação — rica em factores de crescimento (PDGF, TGF-β, VEGF) — é injectada na articulação, criando um ambiente anti-inflamatório e pró-anabólico que pode reduzir a sinovite crónica e influenciar o metabolismo da cartilagem. Não existe evidência de reconstituição de cartilagem perdida.
O que esperar
- Efeito analgésico inicial nas primeiras semanas
- Pico de eficácia entre a 6.ª e a 12.ª semana
- Duração média: 6 a 12 meses (varia com grau de artrose)
- Protocolo habitual: 1 a 3 injecções com intervalo de 2 a 4 semanas
Indicações principais
Gonartroso grau I–III
Tendinopatia rotuliana
Lesões da cartilagem
Pós-cirurgia artroscópica
Perfil de segurança
- Produto autólogo — sem risco de reacção alérgica sistémica
- Pode ocorrer dor/edema local nas 48–72h após injecção
- Não deteriora a cartilagem com uso repetido
- Sem interacção com anticoagulantes orais na maioria dos protocolos
Evidência: Meta-análises recentes (NEJM, JBJS) confirmam superioridade do PRP face ao ácido hialurónico e ao placebo na gonartrose ligeira a moderada, com benefício estatisticamente significativo aos 12 meses. A qualidade do PRP (concentração plaquetária, leucócitos) e a selecção do doente determinam o resultado.
Como funciona
O ácido hialurónico (AH) é um componente natural do líquido sinovial. Na osteoartrose, a sua concentração e viscosidade diminuem. A injecção de AH exógeno restaura as propriedades viscoelásticas do líquido articular, reduzindo o atrito e melhorando a amortização. Exerce também um efeito anti-inflamatório indirecto via receptores CD44. Não regenera cartilagem, mas pode retardar a sua degradação em alguns contextos.
O que esperar
- Efeito gradual: 4 a 8 semanas após a última injecção
- Duração: 6 a 12 meses (formulações de alto peso molecular)
- Protocolo: 1 injecção (formulações crosslinkadas) ou 3–5 semanais
- Repetição possível sem deterioração articular
Indicações principais
Gonartrose grau I–III
Lesões precoces da cartilagem
Doente não candidato a corticoide
Complemento à fisioterapia
Tipos disponíveis
- Baixo peso molecular (ex. Ostenil) — 3 a 5 injecções semanais
- Alto peso molecular crosslinkado (ex. Durolane, Monovisc) — dose única
- Formulações combinadas com PRP — protocolo emergente
Evidência: A ESCEO (European Society for Clinical and Economic Aspects of Osteoporosis) e a EULAR incluem a viscossuplementação nas guidelines de gonartrose. A eficácia varia com o grau de artrose e o peso molecular da formulação. Gonartrose avançada (grau IV) responde menos. A combinação com PRP apresenta resultados preliminares promissores.
Como funciona
Os corticosteroides intra-articulares suprimem a cascata inflamatória via receptores de glucocorticoides nas células sinoviais — inibindo prostaglandinas, citocinas pró-inflamatórias (IL-1β, TNF-α) e mediadores da dor. O resultado é uma redução rápida e potente da sinovite e do derrame articular.
O que esperar
- Alívio em 24 a 72 horas após a injecção
- Efeito máximo: 1 a 2 semanas
- Duração: 4 a 8 semanas (varia entre doentes)
- Recomendação: máximo 3 a 4 injecções por articulação por ano
Indicações principais
Crise inflamatória aguda
Sinovite com derrame
Preparação para evento
Gonartrose avançada sintomática
Riscos e limitações
- Uso repetido associado a perda de cartilagem articular (estudos RMN)
- Pode mascarar a progressão da doença subjacente
- Risco aumentado de infecção articular em doentes diabéticos (transitório)
- Não usar em doentes a planear artroplastia nos 3 meses seguintes
- "Flare" pós-injecção em 2–10% dos casos (dor nas primeiras 48h)
⚠
Nota clínica importante: Estudos de RMN longitudinal (Raynauld et al., NEJM; McAlindon et al., JAMA 2017) demonstraram maior perda de volume de cartilagem a 2 anos em doentes com gonartrose que receberam injecções repetidas de corticosteroide vs. soro fisiológico. Este dado não invalida o seu uso, mas deve orientar a selecção do doente e a frequência de administração.
| Parâmetro |
Corticosteroide |
Ácido Hialurónico |
PRP |
| Tipo |
Não-regenerativa |
"Regenerativa" |
"Regenerativa" |
| Início de efeito |
24–72 horas |
4–8 semanas |
4–12 semanas |
| Duração do efeito |
4–8 semanas |
6–12 meses |
6–12+ meses |
| Efeito na cartilagem |
Potencialmente negativo |
Neutro / protector |
Sem regeneração; pode abrandar degradação |
| N.º de injecções |
1 |
1–5 (conforme produto) |
1–3 (protocolo) |
| Uso repetido |
Limitado (<4/ano) |
Seguro |
Seguro |
| Melhor indicação |
Crise aguda, sinovite |
Gonartrose crónica leve-moderada |
Gonartrose + lesão activa |
| Uso pré-cirúrgico |
Evitar nos 3 meses antes |
Sem contraindicação |
Pode acelerar recuperação |
Qual é a certa para o seu caso?
Cada situação clínica é diferente. Estes cenários ilustram o raciocínio, mas a decisão final é sempre feita após avaliação.
Cenário A
"Tenho dor intensa há 3 dias, o joelho está inchado e quero alívio rápido."
Crise inflamatória aguda com sinovite. O corticosteroide é a opção mais indicada para controlo rápido dos sintomas.
→ Corticosteroide
Cenário B
"Tenho artrose do joelho grau II. A dor é crónica e quero evitar a cirurgia."
Doença crónica sem crise aguda. PRP ou ácido hialurónico (conforme grau de lesão e perfil do doente) são as opções de primeira linha.
→ PRP ou Ácido Hialurónico
Cenário C
"Tenho tendinopatia rotuliana. Já tentei fisioterapia durante 3 meses sem melhoria."
Tendinopatia crónica refractária. O PRP tem a melhor evidência neste contexto. Os corticosteroides estão contraindicados em tendões (risco de ruptura).
→ PRP
Cenário D
"Vou fazer uma cirurgia ao joelho daqui a 6 meses. Posso fazer uma infiltração para gerir a dor entretanto?"
Evitar corticosteroides nos 3 meses que antecedem a cirurgia (risco infeccioso aumentado). Ácido hialurónico ou PRP são alternativas seguras.
→ Ácido Hialurónico ou PRP
1
Avaliação
Confirmação da indicação, análise de exames de imagem, exclusão de contraindicações.
2
Preparação
Assepsia rigorosa. Posicionamento do joelho. Eco-guiada sempre que indicado para maior precisão.
3
Injecção
Procedimento de 2 a 5 minutos. Desconforto mínimo. Aspiração de derrame se presente.
4
Pós-procedimento
Repouso relativo 24–48h. Retoma da actividade habitual em 2 a 3 dias. Seguimento agendado.
A infiltração vai curar a minha artrose?
Nenhuma infiltração cura a artrose — é uma doença degenerativa crónica sem cura definitiva conhecida (a não ser a substituição protésica). O que as infiltrações podem fazer é controlar os sintomas, abrandar a progressão (especialmente o PRP e o AH) e melhorar a qualidade de vida. O objectivo é gerir a artrose a longo prazo, não eliminar a doença.
Posso fazer corticosteroides repetidamente se me ajudam?
Esta é uma das questões mais importantes na prática clínica. Os corticosteroides são eficazes no curto prazo, mas estudos de RMN a longo prazo mostram perda de volume de cartilagem com uso repetido. A recomendação actual é não exceder 3 a 4 injecções por articulação por ano, e explorar alternativas ditas "regenerativas" — PRP ou ácido hialurónico — para controlo crónico da dor.
O PRP é comparticipado pelo SNS ou pelos seguros de saúde?
Em Portugal, o PRP não está actualmente comparticipado pelo SNS para gonartrose. Alguns seguros de saúde privados cobrem parcialmente, mas varia com a apólice. O ácido hialurónico tem comparticipação pelo SNS em determinadas condições. O corticosteroide intra-articular é amplamente comparticipado. Recomendo confirmar a cobertura com o seu seguro antes da consulta.
Posso fazer uma infiltração e depois operar ao joelho?
Depende do tipo. Os corticosteroides intra-articulares aumentam o risco de infecção peri-cirúrgica — a recomendação é um intervalo mínimo de 3 meses antes de qualquer cirurgia articular. O ácido hialurónico e o PRP não têm esta contraindicação. É fundamental informar o cirurgião de qualquer infiltração recente antes de uma intervenção.
Tenho diabetes. Posso fazer uma infiltração de corticosteroide?
Sim, mas com precaução. Os corticosteroides intra-articulares podem causar elevação transitória da glicemia nas 24 a 72 horas após a injecção — especialmente em diabéticos com controlo menos rigoroso. O risco é real mas geralmente controlável. Informe sempre o seu médico do estado do diabetes. Em doentes diabéticos com gonartrose crónica, as opções ditas "regenerativas" — PRP ou ácido hialurónico — são frequentemente preferíveis para uso repetido.
Qual é a diferença entre as marcas de ácido hialurónico (Ostenil, Durolane, Monovisc)?
A principal diferença está no peso molecular e na presença ou ausência de crosslinking (ligações cruzadas entre cadeias de AH). Os produtos crosslinkados de alto peso molecular (Durolane, Monovisc) são administrados numa única injecção e têm maior duração teórica. Os produtos de baixo peso molecular (Ostenil) requerem 3 a 5 injecções semanais mas têm um custo unitário inferior. A escolha depende do grau de artrose, preferência do doente e contexto clínico.
Quer saber qual a infiltração indicada para o seu joelho?
A selecção correcta depende do diagnóstico, do grau de artrose, da história clínica e dos seus objectivos. Agende uma consulta para uma avaliação individualizada.
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